162.
Hoje eu perdi mais um pedaço.
Nesses tempos vários punhados foram secando, caindo, as faltas secando, fechando. Não crescendo novamente, mas secando nas bordas, menos dolorosas ao vento. Hoje perdi mais um.
Falando ao telefone com a vó, a conversa que às vezes eu evito, não por falta de saudade, mas pela covardia. Ficar sendo lembrada do peso na voz, da impossibilidade de fazer com que qualquer tempo volte... pensar no tempo diminuindo é forte demais durante o tempo que ainda é, o desespero de reter me faz não querer gastar, não chegar perto demais, não faz sentido nenhum, faz todo o sentido do mundo.
Falando ao telefone com a vó, me atravessou no peito aquela vontade aguda de ter um cúmplice de sentimento. E sobre esses sentimentos que não se voltavam diretamente ou reflexivamente a você, você sempre soube me entender de um jeito que só existe em você. Você ia falar que ela é muito fofa. Você ia sentir muito carinho pela minha vó, como eu sinto pela sua. (Vejo fotos, peço notícias, eu amo mais na realidade do que você, afinal.) Você ia sentir pela minha vó, ao mesmo tempo que eu, e isso ia criar um refúgio, um ninho pro meu luto. Mas meu luto é você.